01/11/2001 19:44

Estudantes debatem as políticas de seleção de pessoal e a discriminação no trabalho

O “I Debate sobre Políticas e Práticas de Recrutamento e Seleção de Pessoal”, realizado pela Faculdade de Ciências Administrativas e Contábeis da UNIGRAN, trouxe à reflexão alguns aspectos polêmicos acerca do trinômio trabalho-emprego-empregabilidade em Dourados. Balizando as argumentações, o comportamento ético e profissional e a responsabilidade das organizações foram objetos de análise dos participantes desse evento acadêmico que reuniu profissionais de ReID_CURSOs Humanos, um juiz da Justiça do Trabalho, um representante do Nucodep (Núcleo de Combate à Discriminação no Emprego e Profissão), e estudantes dos ID_CURSOs de Administração de Empresas e Administração Rural da Instituição.

Nesse debate, temas como a ética empresarial, as políticas salariais, a diversidade pessoal, a competição, os direitos trabalhistas, a discriminação e o papel do selecionador, entre outros, foram esmiuçados com o propósito de estimular o senso crítico e a formação humanística e política dos universitários. Contudo, essa discussão está apenas começando e interessa à sociedade, na medida que diz respeito às relações entre trabalhadores e empregadores.

A reflexão parte do alto índice de desemprego em Dourados e da constatação de que existe a oferta de um grande número de postos de trabalho. As vagas, entretanto, demandam mão-de-obra qualificada. Até aqui, o problema se resumiria na melhor qualificação dos trabalhadores, seja quanto à elevação dos graus de escolarização, seja quanto aumento do nível de especialização profissional.

Por outro lado, existem pessoas qualificadas que não estão conseguindo ocupar as vagas oferecidas. “Por que as pessoas que procuram emprego e as empresas que o oferecem não se encontram?”, questionou o professor Narciso Bastos Gomes, coordenador do Debate, iniciando as discussões.

Os palestrantes convidados deixaram transparecer que, para as empresas, a qualificação tem mais significados que o conhecimento e a experiência profissional. Bety Lemes Fagundes, encarregada de Recrutamento e Seleção da Seara Alimentos, a maior empregadora de Mato Grosso do Sul, incentiva as pessoas a investirem continuamente em sua própria educação, como um dos lastros de sua empregabilidade. “A maioria das pessoas acha que só a graduação basta e pensa que o emprego que têm é para toda a vida”, falou. Entre outras qualidades, a selecionadora observa se no currículo do candidato consta participação em ações sociais e procura descobrir os talentos que tem. “O recrutador tem de ser sensível e intuitivo para poder identificar os talentos, porque é preciso colocar as pessoas certas nos locais certos”, afirmou acrescentando que, do contrário, surgem as insatisfações, da empresa e do empregado.

Clara Oura Hiraishi, executiva da “Competência.Com”, empresa de consultoria na área de pessoal, vê a questão da empregabilidade de outro ângulo. Para ela, ser talentoso é pouco. “As empresas querem trabalhadores dispostos a enfrentar o batente, talento não basta, é preciso ter vontade, competência e persistência”, disse a empresária que confirma haver muitos postos de trabalho a serem preenchidos em Dourados. Porém, ela diz que a cidade não oferece trabalhadores com o perfil desejado pelas organizações e, por isso, elas estão contratando pessoas em outros Estados ou, pessoas que residem na região, mas que são originárias de Estado como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo, principalmente. “Temos as vagas, mas tem muita gente chegando do sul e tomando o mercado do pessoal daqui”, revelou.

Respondendo ao questionamento da estudante de Administração de Empresas, Aparecida Máximo Fátima dos Santos, que perguntou se não era o caso de os empresários investirem na formação de seus empregados, Clara citou exemplos de empresas que procuram patrocinar ID_CURSOs e treinamentos para os funcionários, mas que os empregados não vêem essas ofertas como oportunidades de investimentos em si próprios, e sim para as empresas. “Quando um empresário propõe um ID_CURSO de aprimoramento profissional, os funcionários querem primeiro saber se irão receber DATA_HORAs extras por participar do treinamento”, disse a consultora avaliando que esse comportamento indica falta de comprometimento do empregado consigo mesmo e com a empresa em que trabalha.

Sílvio César Zani, supervisor de RH da Doux-Frangosul, concorda com Clara Hiraishi e defende que a palavra-chave é “comprometimento”. Sem generalizar, ele avalia que os trabalhadores locais não demonstram o compromisso que as empresas desejariam reconhecer em seu quadro de pessoal. “Por isso é que a mão de obra de Dourados está perdendo mercado para pessoas de outros Estados”, disse.

A psicóloga Evely Vasconcelos, responsável pelo setor seleção de pessoal do Sesi – Serviço Social da Indústria – vai mais longe e diz que, ao lado da falta de qualificação, o sentimento de não-comprometimento do empregado com a organização é uma questão de cultura local. “As pessoas daqui são muito apegadas ao emprego, não ao trabalho, isso cultural”, reforçou.

Já o professor Domingos Ventorini aceita que o trabalhador deve especializar-se e mudar alguns comportamentos que ameaçam a sua empregabilidade. Porém, como membro do Nucodep – Núcleo de combate à discriminação, ligado à Delegacia Regional do Trabalho em Dourados – ele entende que a preferência por trabalhadores originários de outros Estados é sinal de preconceito: “Isso é bairrismo”. Para Ventorini, a discriminação é a marca da falta de profissionalismo dos empresários locais e começa ainda recrutamento de pessoal. “Devemos falar em profissionalização do empresário, não só do funcionário”, ponderou.

Ele mencionou denúncias que o Núcleo tem recebido de discriminação religiosa, de gênero, de preferência sexual, cor, obesidade, origem, aos portadores de deficiência física e outras formas que se mostram em anúncios como: “Precisam-se de pessoas de boa aparência”.

Ventorini ressalta que as manifestações preconceituosas acontecem não só no momento da contratação, mas também durante o desempenho da função – muitas vezes por parte das chefias – e acaba por minar o entusiasmo do trabalhador em relação à empresa. “Uma ofensa discriminatória põe por terra todo um treinamento de motivação pessoal; mas quando eliminamos a discriminação, nós temos um sujeito empenhado, que veste a camisa da empresa; valorizar a competência é a melhor maneira de trazer o funcionário para a organização”, sustenta o professor.

O juiz Francisco das Chagas Filho, da Justiça do Trabalho em Dourados, lembra que existem dispositivos legais, coibindo a discriminação – como a Lei 9.029/95, que proíbe a exigência de atestados de gravidez e esterilização para efeitos de admissão ou permanência no emprego - e que essa prática pode ser tipificada como crime. Ele lembra também que a batalha contra o preconceito é mundial e cita que o Brasil é signatário da Convenção 111, da Organização Internacional do Trabalho, OIT, que faz parte do ordenamento jurídico brasileiro. Por meio dessa convenção, o país tem o compromisso de formular e de aplicar uma política nacional que promova “a igualdade de oportunidades e de tratamento em matéria de emprego e profissão, com objetivo de eliminar toda discriminação nessa matéria”.

Contudo, mesmo com toda a legislação e o esforço dos órgãos de governo, a Justiça do Trabalho ainda tem de julgar casos de discriminação de todo ID_TIPO. “Nós temos tido problemas sérios, a ponto de o preposto dizer que na empresa dele, mãe solteira não trabalha ou de referir-se a uma reclamante como índia piolhenta”, disse o magistrado acrescentando denúncias de pessoas que não foram contratadas ou foram despedidas por estarem grávidas, serem portadores da L.E.R (Lesão por Esforço Repetitivo), por serem negras ou índias, e até mesmo por serem portadoras de deficiência física. “A Lei prevê penalidades para tudo isso, inclusive, para o caso de o empregador ser objeto de difamação ou prática preconceituosa por parte de um empregado, o que é motivo de demissão por justa causa”, disse sublinhando que, entretanto, a existência de penalidades, não basta para acabar com a discriminação. “Esse ID_TIPO de evento”, falou elogiando a organização do Debate sobre Políticas e Práticas de Recrutamento e Seleção de Pessoal, “acaba por levar a sociedade à conscientização, o que é muito mais importante que a aplicação de penas”.

Foto: (da esquerda) Domingos Ventorini (Nucodep), Sílvio Zani (DOUX), Francisco das Chagas (juiz trabalhista), Narciso Bastos (professor/Unigran), Clara Hiraishi (Competência.Com), Bety Lemes (Seara) e Evely Vasconcelos (Sesi).
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