Portal do Aluno
Notícias
14/08/2002 - 14:27
Artigo: Ensino de gramática.
José Augusto Carvalho Quem se diz contrário ao ensino da gramática revela no mínimo a ignorância do que seja gramática e ainda menos do que seja ensino. Ora, a gramática é um conjunto de regras interiorizadas pelo falante, capazes de permitir-lhe ouvir, entender e reconhecer como sendo de sua língua frases que nunca ouviu antes. Essa definição, que reproduzo das lições de Chomsky, significa que é impossível dispensar a gramática, já que ela é condição sine qua non para o exercício de qualquer atividade lingüística. É óbvio que aquele que se diz contrário à gramática está se referindo ao conjunto de regras da norma culta. E é aí, novamente, que há equívoco. Ter competência lingüística não significa ter conhecimento consciente da língua (competência aqui entendida como a capacidade que tem o falante de aplicar ou de atualizar, isto é, de tornar em ato sua gramática interiorizada). O ensino da língua consiste, antes de tudo, em transformar um conhecimento intuitivo em conhecimento consciente ou, como diria Chomsky, o conhecimento em cognoscimento. E o ensino da gramática, longe de ser a imposição de normas lingüísticas, ou a substituição do dialeto do aluno pelo dialeto prestigioso, é apenas a transmissão de conhecimento de uma variedade lingüística diferente como instrumento de ascensão social e de aquisição de outros saberes. Ninguém escreve um compêndio de Física ou de Biologia em dialeto caipira. O grande erro de nossas gramáticas, e de alguns dicionários, é abonar as regras gramaticais (como as de regência e de concordância) com exemplos de escritores. Até mesmo gramáticos, como Adriano da Gama Kury ou Celso Cunha, que usam desse expediente, sabem — e confessaram-no — que o objetivo de um escritor é subverter a norma e não obedecer a ela. Se um gramático cita Machado de Assis como exemplo, por que não cita Guimarães Rosa? Não foi a linguagem dos escritores que sedimentou a norma culta, mas a linguagem jurídica. E é ao escritor que compete exatamente praticar a erosão da norma. É por isso que o pensador espanhol José Ortega y Gasset, em O homem é a gente — intercomunicação humana. 2.ed. Rio de Janeiro: Livro Ibero-americano, 1973, p. 272), afirma: "(...) o que se chama ser um bom escritor, isto é, um escritor com estilo, é causar freqüentes erosões à gramática e ao léxico. Por isso, um lingüista tão grande como Vendryès pôde definir o que é uma língua morta, dizendo que é aquela língua em que não há direito a cometer faltas, o que, invertido, equivale a dizer que a língua viva vive de cometê-las." Para cometer tais falhas é preciso saber como fazê-lo, segundo depoimento de Autran Dourado, um do nossos melhores escritores contemporâneos. É necessário, pois, conhecer a norma culta para desrespeitá-la com arte e com conhecimento de causa. E é disso que se esquecem os que atacam o ensino da gramática. FONTE: A Gazeta de Vitória/ES - 12/08/2002.
» Acompanhe
UNIGRAN - Centro Universitário da Grande Dourados
Todos os Direitos Reservados. Rua Balbina de Matos, 2121 - Jd. Universitário
CEP 79.824-900 - Dourados/MS - Fone: (67) 3411-4141 / Fax: (67) 3411-4167