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30/09/2006 - 16:25
ARTIGO: Sanguessugas machadianas.
Machado de Assis é leitura fundamental neste momento da política brasileira, em que corrupção, roubalheira e escândalos rendem manchetes e revoltam o cidadão por Joaquim Branco (Retrato de Machado de Assis/Henrique Bernadelli/Reprodução - O crítico momento político por que passa o Brasil – fraudes, denúncias, corrupção, CPIs, mensalões, sanguessugas – leva até o menos preocupado dos mortais à reflexão. Se avançarmos no futuro, e havia há algum tempo a perspectiva de um fim do túnel, pouco podemos esperar de positivo. De volta ao passado, pelo filtro do ficcional, vamos encontrar, porém, uma figura que nos pode fornecer elementos que, se não iluminam inteiramente o quadro, pelo menos fazem com que nos conformemos com o gênero humano. É Machado de Assis, com sua incrível ficção. Se em romances como Quincas Borba ou Memórias póstumas de Brás Cubas o dinheiro ou o interesse impregnam, por meio da condução temática, a tessitura narrativa, em contos como “O enfermeiro” e “Pai contra mãe” não muda a direção temática. Em todos eles estão anotados os desvios e fraquezas do homem, ainda que em diferentes formas. Conhecedor das armadilhas da vida, o velho Machado deixa aflorar aqui e ali um riso indireto e um registro com que a ficção devolve a realidade ao real e nos oferece o belo resultado de suas criações romanescas, e isso pelo menos nos consola estética e criticamente. Entre seus trabalhos, um exemplo que bem se encaixa aos tempos atuais é o conto “Suje-se gordo”, publicado em 1906 na coletânea Relíquias da casa velha e agora compondo os dois volumes de Contos: uma antologia, catalogados pelo brasilianista inglês John Gledson. Trata-se de uma pequena peça de cinco páginas que se inscreve na segunda fase do autor, a considerada realista. O conto abre-se com uma despretensiosa conversa entre dois amigos – um deles começa a narrar em primeira pessoa – que, no terraço de um teatro, aguardam o término do intervalo de uma peça intitulada A sentença ou o tribunal do júri. A próposito do título da peça, o outro amigo toma o lugar do narrador e inicia um relato sobre sua participação em tribunais como jurado, falando de suas preocupações e escrúpulos na DATA_HORA da condenação das pessoas. Conta que, certa vez, quando foi escolhido como jurado, o réu em questão era acusado de haver falsificado um documento com o objetivo de se beneficiar com um roubo de pequena monta. Apesar da argumentação brilhante da defesa e do constrangimento do acusado, que parecia inocente, este acabou sendo condenado. Na ocasião, um dos jurados de nome Lopes, porém, salientando-se dos demais, justificou convictamente seu voto: “O crime está mais do que provado. O sujeito nega, porque todo réu nega, mas o certo é que cometeu a falsidade, e que falsidade! Tudo por uma miséria, duzentos mil-réis! Suje-se gordo! Quer sujar? Suje-se gordo!” A partir desse ponto, a expressão “suje-se gordo”, que, por sinal, dá título ao conto, ressoa por toda a narrativa, vinda da mente do narrador, e significando uma condenação dupla a alguém pelo fato de ser um pequeno ladrão. Anos depois, ao tomar parte de outro julgamento, nosso narrador encontra, agora como réu, o tal Lopes que tão enfaticamente acusara o rapaz. Lopes era funcionário de um banco onde praticara um grande desfalque – 110 contos de réis. No julgamento, intervêm as falas da defesa e da acusação, num jogo quase automaticamente estabelecido, e no final sai o veredito: inocente. Aqui fica a proposição temática de Machado de Assis e nela a sua similaridade com o que se passa hoje no país além de seu convite reflexivo. Quanto à literatura em si, não é apenas isso. Machado constrói uma ficção em que a dúvida do personagem, que, no começo apenas se esboçara como um problema de consciência (não querer julgar ninguém para não ser julgado), passa por várias nuances e gradações envolvendo a existência humana, não só no que se refere ao ato de julgar, mas também ao de praticar o ilícito. E o riso irônico que permeia o conto tanto resvala na atitude des/humana que a vida se nos apresenta em suas mazelas morais como na maestria com que o ficcionista mistura ao seu relato o componente teatral. Metalingüisticamente. E o conto se encerra com esta frase de um dos personagens, deixando o leitor, como sempre, machadeanamente no ar: “Acabou a música, vamos para as nossas cadeiras.” Joaquim Branco é poeta, crítico, professor de literatura brasileira nas Faculdades Integradas de Cataguases, doutorando em literatura comparada na Uerj O livro: CONTOS: UMA ANTOLOGIA, De Machado de Assis, org John Gledson. Companhia das Letras, 2 vol.
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